03/09/25 - koh-samui, tailândia
sentado em um speedboat que me leva entre as ilhas de koh-phangan e koh-samui na tailândia, começo essa newsletter.
completo vinte e oito anos em alguns dias, com uma câmera na mão desde os dezesseis, me pergunto o porquê da minha decisão de começar a escrever esse ano.
desde que voltei de tóquio em dezembro do ano passado, percebi que havia chegado a um limite: imagens não eram mais suficientes para explicar, ou, naquele caso, vomitar tudo o que eu tinha dentro de mim.
a volta de tóquio foi solitária, o medo tomava conta do meu corpo. eu não cheguei sozinho em tóquio, eu tinha alguém do meu lado, assim como nos dois anos anteriores, quando atravessamos a europa juntos; uns dias em amsterdã, um mês na toscana, três semanas na suíça, três meses no interior da inglaterra, cinco meses em ibiza, e por fim paris, a cidade que virou casa.
a volta de tóquio foi vazia, mas também foi cheia de incertezas, de inseguranças, de tristeza; paris não fazia mais sentido, eu nunca escolhi paris, a cidade não importava, qualquer lugar servia, assim como muitas das decisões que precisei tomar durante aqueles anos, o “tanto faz” era frequente, arrisco dizer que diário.
paris nunca foi casa, por mais que eu tenha tentado, por mais que nós dois tenhamos tentado; paris era um ponto de parada; sair de lá nunca foi difícil, a volta sempre foi; e ainda é dolorosa.
comumente conhecida como a cidade do amor, entre filmes, livros e casais colocando cadeados em pontes, quando vista de fora, o amor parece presente em cada canto.
ninguém escolhe amar, não se escolhe quando é hora de amar e quando é hora de deixar.
amar pode ser como um cabo de aço: quase impossível de romper, mas que, com o tempo, pode se desgastar até se tornar uma linha fina, pronta para ser cortada em mil pedaços a qualquer momento. irônico, já que ela estudava moda; nosso apartamento vivia cheio de fios de costura espalhados pelo chão. e, assim como essas linhas esquecidas, a nossa relação foi, pouco a pouco, se partindo em mil pedaços.
como um fardo que se tornara impossível de carregar, parei de cuidar como cuidava; não dela, mas de mim; o medo de olhar no espelho e enfrentar a tempestade que passava aqui, de admitir as inseguranças, de parar de fugir.
um amigo me perguntou há uns meses se faço tudo que faço porque procuro algo, ou se estou fugindo de algo. se estou fugindo, não sei do que; eu tive uma infância muito independente, fui morar em porto alegre com a minha mãe depois do divórcio dos meus pais, mas me recusei a estudar na capital, eu tinha amigos em gravataí, cidade vizinha onde morei até os oito anos.
todos os dias, por dois anos, henrique embarcava em uma viagem de uma hora no ônibus da sogil pra ir pra escola; imagino que isso seja até proibido nos dias de hoje.
eu sempre recebi muito amor e carinho dos meus pais, eles foram os melhores pais que eu poderia ter; mas ao mesmo tempo, sempre tivemos uma relação de muita confiança e responsabilidade, do tipo que uma criança não deveria ter; na época nada disso era problema pra mim, afinal de contas eu estava fazendo o que eu mais queria, estudar na escola a uma hora de distância pra estar com meus amigos; e pra falar a verdade, eu não mudaria nada desses anos da minha vida.
anos depois, eu saía do brasil com ela, em direção à europa, sem passagem de volta, sem olhar pra trás; eu já havia feito aquilo outras três vezes, quando morei nos estados unidos; a primeira com dezessete anos, a última com vinte e um; aprendi muito: lavei pratos, limpei banheiros, troquei fraldas, levei na escola e no médico, fui motorista, cortei grama e serrei lenha pro inverno; o maior aprendizado de todos? dar adeus, adeus aos meus pais e amigos, adeus à culinária, adeus aos meus avós, dos quais eu não sabia se teria a chance de rever, adeus a uma parte de mim que ficava com as pessoas que eu amo, pra sempre; eu nunca dei adeus querendo voltar, e de repente dar adeus foi ficando cada vez mais fácil.
é preciso saber dar adeus pra viver como eu vivo, saber dar valor a cada momento, porque na minha vida logo eles acabam. desde tóquio, há mais de nove meses eu não fico por mais de duas ou três semanas sob o mesmo teto, por vezes durmo em cinco camas diferentes em uma semana.
meus pais sempre disseram que me criaram pro mundo, mas a verdade é que eles não sabiam o quão grande era esse tal de mundo.
era a primeira vez dela indo morar fora, era a primeira vez dela dando adeus às pessoas que ela mais ama; eu lembro como se fosse hoje, e eu sabia o quão difícil seria pra ela.
amar também é suportar a dor da perda, amar me fez entender que era necessário deixar; deixar o brasil, deixar quem eu mais amo, deixar o meu quarto, a minha cama, a minha vida, deixar o henrique de oito anos que embarcava naquele ônibus todas as manhãs.
e anos depois amar me fez entender que era necessário deixar; deixar tóquio, deixar nós dois e tudo que contruímos juntos, pra depois destruir num piscar de olhos.
amar me fez entender que era necessário deixar paris; e hoje, olhando pra trás, vejo o quão necessário era.
paris deu, e depois tomou de volta; nunca amei a cidade do amor, talvez por isso ela nunca tenha me amado também.
até hoje eu me pergunto quantos daqueles cadeados nas pontes não representam mais o amor entre dois.
adeus, paris.
09/09/25 - koh-phangan, tailândia
sentado na varanda do que chamo de casa durante essas semanas em koh-phangan, termino essa newsletter.
criei uma playlist no spotify dedicada ao fim do verão, e com isso o fim de muitas coisas na minha vida (não usarei a palavra ‘adeus’ mais uma vez).
tem vídeo novo no youtube quinta-feira, spoiler: o adeus à amsterdam, o perrengue pra arrumar as malas (e a vida) em um dia, pombas, banho de mar com sensação térmica de 38 graus no oriente médio, um tour pela sala vip mais insana que eu já vi, quase perdendo um voo, e 4 países em 96 horas. se inscreve lá pra não perder.
aos que têm interesse em textos em inglês, quinta-feira lanço a minha newsletter ‘what time can’t take away’, onde contarei histórias semelhantes, mas não iguais às que conto aqui.
vivam, a vida passa rápido demais.





Me mudei uma vez de cidade RJ > SP e depois de país, Brasil > Irlanda, não chega nem perto do quanto você se muda, mas me identifiquei muito com o que passou/passa, que texto, obrigado!
Esse texto me pegou, sobre amar e deixar. Tudo tem um propósito, até o fim. Ler isso agora foi bom demais. :)